A sala de aula do antigo Departamento de Arte e Comunicação (DAC), do Curso de Comunicação Social, da Universidade Federal da Paraíba, se enchia de graça e beleza com sua presença. Era o ano de 1979 e ele chegava à universidade depois de enfrentar as teias insanas da ditadura militar, que lhe havia suspendido até mesmo o direito a existência. Mas esqueceram: ele era resistência.
Seu porte alto, sua voz forte, seu olhar penetrante, embora encantador, suas camisas, sempre de mangas compridas, me prendeu a atenção logo no primeiro dia da aula da disciplina Fundamentos Científicos da Comunicação.
E com que paixão ele falava do cinema novo, de Glauber Rocha, recitando poesias e mostrando desenhos de sua autoria.
E aquela aluna do interior, ainda tímida e acanhada com o esplendor do mar e de suas belezas e ventos, se encanta pelo mestre. Suas aulas eram ansiosamente aguardadas e inteligentemente digeridas. Os textos eram lidos e relidos para absorver e reelaborar visões de mundo. As discussões e debates em sala de aula, e que se prolongavam nas sombras refrescantes das castanholas do DAC, alimentavam e reforçavam minha admiração pelo mestre. Mesmo vivendo momentos delicados, e ainda respirando os ventos sombrios da ditadura, ele nos instigava a pensar, atividade tão temerária em tempos tenebrosos de repressão e medo.
E, cumprida a disciplina, a admiração segue em tantos momentos de eventos e debates em que sua presença era necessária e indispensável. Até mesmo nos corredores do DAC, ou a sombra de suas castanholas, sempre o encontrava em animadas discussões com grupos de alunos e docentes. Sua presença se destacava, não somente pelo porte físico e a voz potente, mas por ser um interlocutor de inteligência instigante e delicadeza em ouvir e argumentar. E, nestes momentos, o mestre me encantava, e mais tarde, seduzida por Nelson Mandela, passei a vê-lo também como inspiração de transformação, por acreditar que “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.
E, nos últimos dias, me informando de sua morte, lembrei da aula da saudade dos concluintes de Comunicação Social da UFPB, do Período 791. Você foi nosso convidado para ministrar a aula e, para cada um, deu um livro com seus desenhos e poemas. Na dedicatória para mim estava escrito: Para Mariana, com todo furor do meu ciúme custodiano”.
Explicando: por vários períodos fui monitora do professor Luiz Custódio da Silva.
E essa dedicatória traduz quem era o mestre: Jomard Muniz de Brito, que me ensinou ser possível transformar o mundo, mesmo somente, ou apenas, nos transformando em tantos “jomards”.