A pergunta pode parecer absurda, mas deixa de ser tão absurda quando vemos as imagens da manifestação convocada pelo candidato da extrema direita à Presidência da República. A cena era, no mínimo, curiosa: muitas bandeiras dos Estados Unidos tremulando, um enorme boneco de papelão com a imagem de Donald Trump e brasileiros desfilando com bonés do MAGA.
Tudo isso no dia 7 de Setembro, justamente quando o Brasil celebra sua Independência.
É difícil imaginar ironia maior. Em pleno Dia da Independência, alguns dos nossos mais fervorosos “patriotas” resolveram prestar homenagem à bandeira de outro país e transformar Donald Trump numa espécie de patrono da política brasileira. Faltou apenas convidá-lo para hastear a bandeira americana no lugar da brasileira.
A que ponto chegamos! Esses patriotas de novo tipo parecem ter descoberto uma curiosa maneira de demonstrar amor ao Brasil: exaltar uma potência estrangeira, defender os interesses do capital norte-americano e sonhar com a intervenção de um presidente dos Estados Unidos nos destinos políticos brasileiros. Talvez estejam apenas aguardando que Trump anuncie, em Washington, a criação de mais um Estado americano e que o Brasil seja o escolhido.
O mais extraordinário é a contradição. Falam tanto em soberania nacional, mas carregam bandeiras estrangeiras. Pregam patriotismo, mas veneram um líder estrangeiro. Dizem defender o Brasil, mas admitem entregar nossas riquezas aos interesses econômicos dos Estados Unidos.
Que patriotismo é esse? Nem nos Estados Unidos Donald Trump é tão exaltando. Pelo contrário, lá seu governo tem uma desaprovação próxima de 70 por cento da população. Mas aqui há quem o transforme em ídolo, reproduza seu slogan MAGA — Make America Great Again e pareça acreditar que, para o Brasil ficar grande, primeiro é preciso fazer a América grande.
Talvez esteja aí a explicação para o entusiasmo: eles não querem exatamente um Brasil grande. Querem um Brasil submisso. Isso não pode ser tratado como uma manifestação política qualquer. Há nela uma mensagem explícita de entreguismo e de desprezo pela própria ideia de soberania nacional. E quando essa mensagem é exibida justamente no 7 de Setembro, a ironia transforma-se em afronta histórica.
Imagine-se a cena aos olhos de quem lutou pela Independência do Brasil: dois séculos depois, seus descendentes comemorando a independência nacional com bandeiras de outra nação e reverenciando o presidente daquela potência.
É de se perguntar: independência para quem?
O verdadeiro patriota não precisa importar bandeira, boné ou presidente. Não precisa fazer continência para chefe de Estado estrangeiro nem pedir que uma potência externa dite os rumos do seu país.
No próximo 7 de Setembro, talvez seja necessário atualizar a pergunta de 1822. Naquele ano, era preciso saber se o Brasil seria independente de Portugal. Hoje, diante de certas manifestações, a pergunta parece ser outra: O Brasil continuará sendo uma nação soberana ou haverá quem prefira transformá-lo em mais uma estrela na bandeira dos Estados Unidos?