Meus caros. Como um não historiador, mas uma pessoa que, com a extensa informação que recebi de minhas famílias (paterna e materna) sobre determinadas coisas de nossa cidade, sabe que, com o tempo, tudo isso acaba virando um “nada” em nossa história, vou tentar registrar esse fato que, no meu entender, é importante para nossa cidade.
Vou falar do açude original que hoje conhecemos como o “Açude Grande”, ampliado no ano da seca de 1915, com recursos disponibilizados pelo então deputado federal Epitácio Pessoa, que futuramente chegaria a exercer a Presidência da República, e com as obras comandadas pelo famoso engenheiro Dr. Coelho Sobrinho. Ainda se vê, se não removeram a placa de mármore situada no lado sul do sangradouro desse açude, a denominação “Açude Cajazeiras”.
Como ainda não haviam sido construídas as grandes barragens, exatamente sob o governo do próprio Epitácio como presidente, esse açude tinha grande importância. Mas o tema destes escritos é o açude original, sobre o qual o atual Açude Grande foi construído, formando um dos mais belos cartões-postais de nossa cidade, que pode estar sofrendo uma espécie de “mal de Alzheimer” coletivo…
Então vou me reportar a duas histórias de cunho familiar contadas por minha avó materna, que teria como fonte primária o Coronel Matos, seu pai. Segundo ela, ele teria entregue para o colégio o quarto da família no Colégio Padre Rolim, pois cada família tinha que construir seu quarto para o aluno ser internado. Cada quarto era originalmente da família que o construiu, passando depois para filhos e netos. Também teria cedido a vazante de sua família no antigo açude para que fosse construído o novo.
Ainda recordando as antigas histórias, o açude original foi construído pelos descendentes de Mãe Aninha e, possivelmente, por seus escravos, que eram muito poucos. Sabe-se que os antigos açudes eram construídos com técnicas rudimentares: escavava-se onde havia material mais consistente (argila, saibro etc.), que era transportado por jumentos ou muares e compactado no local da parede. Também se deixava um espaço para servir de sangradouro quando a quadra invernosa fosse mais intensa.
O que eu sei é que o escravo mais velho (Etelvino?) era o encarregado de preparar a comida e fazer as anotações das cargas que chegavam. Os supostos “senhores” haviam escolhido um escravo para ser o comandante da construção, e nem poderia ser de outra forma, pois, com um negro velho trabalhando e um monte de jovens senhores apenas a mandar, o açude nunca seria construído. Isso aconteceu em meados do século XIX.
A parede principal situava-se onde hoje fica o final da Avenida João Pessoa, e o sangradouro ficava do lado direito de quem olha para essa avenida, antes da antiga casa de Ana e Vital.
Concluído o açude, foram repartidas as vazantes entre seus construtores, garantindo-lhes a subsistência até que o novo açude fosse construído em 1915, com as verbas federais já mencionadas.
Não sei como ficaram as novas vazantes, mas sei, segundo informações que recebi de Adalberto Nogueira, que o Dr. Coelho ficou com várias delas, enquanto o Coronel Matos não ficou com nenhuma. Também não sei se o Major Hygino Rolim possuía alguma.
Com a ampliação do açude, cujas obras começaram em 1915, sendo inaugurado com grandes festividades em agosto de 1916, quando a Diocese já estava instalada, sua parede norte foi ampliada e a parede original recebeu um grande acréscimo. O novo sangradouro passou a verter água pelo lado norte da casa original situada na elevação onde se encontrava a residência dos pais do Padre-Mestre.
Na placa ali instalada encontra-se o nome “Açude Cajazeiras”, mas posteriormente ele foi renomeado para Açude Senador Epitácio Pessoa. Contudo, todo mundo o conhece como Açude Grande e, naquele tempo, realmente o era, pois seus 1.000.000 de metros cúbicos de armazenamento representavam uma enorme capacidade para 1915.
Posteriormente, foram sendo construídos reservatórios muito maiores, como o Engenheiro Avidos, com 250.000.000 de metros cúbicos, e, já neste século, os enormes açudes Castanhão e Açu.
Mas fica o registro para que não venhamos a esquecer o trabalho de nossos ancestrais, realizado na base do jumento e do próprio suor.