O ciclo do algodão no semiárido da Paraíba e Ceará

1 – ORIGENS E OS ANTECEDENTES

A colonização do semiárido nordestino se deu quando determinados pioneiros, depois das “entradas” para conhecer os sertões desconhecidos, exploraram outras regiões além do leito do Rio São Francisco. Uma delas, comandada pelo sertanista Teodósio Oliveira Ledo, em 1691, a mando da famosa Casa da Torre, na Bahia, descobriu dois rios: um deles, infestado de peixes predadores, que foi chamado de “Piranhas”, e outro, farto de outros espécimes, que recebeu o nome de Rio do Peixe: a bacia onde hoje se situam nossas cidades de Pombal, Sousa e Cajazeiras, além de todas as outras que foram desmembradas de nossa bacia. O Rio Jaguaribe já era conhecido, pois foi explorado pelo português Pero Coelho de Sousa já em 1603.

1.1

No litoral, havia as “plantations”, a monocultura da cana-de-açúcar, e alguns colonos portugueses que vinham do reino, por vontade própria ou para pagar penas de deportação para a colônia; os famosos “degredados”, não sendo submetidos à escravidão, sabedores de algum poço, fonte, olho d’água ou leito de rio onde pudessem fazer alguma criação, adentravam pelos nossos Sertões, com vistas a fugir da quase escravização oferecida pela sociedade da cana-de-açúcar. Ou seja: preferiam a incerteza de viver em liberdade naquelas condições extremas, mas com liberdade, a serem lacaios das Casas Grandes.

Quase nenhum era nobre de berço; esses ou ficavam no Reino, ou eram os senhores dos engenhos, mas se tornavam “homens bons” (nobres), alistando-se no Exército Colonial, na Paraíba, no famoso Batalhão de Piancó (a origem do “coronelismo” – sua esposa podia ostentar o título de “Dona”), ou, como fez nosso ancestral de Cajazeiras, Luiz Gomes de Albuquerque, que, aproveitando a passagem da mesa da Inquisição por Pernambuco, foi lá, fez uma confissão, foi absolvido e recebeu o título de “Nobre pela fé”, e veio com sua esposa, Luiza do Espírito Santo, para se apossar de sua sesmaria na Barra da Timbaúba.

Eram todos pecuaristas. Criavam gado, havia terras em abundância para o gado pastar extensivamente. Os poucos índios da região, treinados, eram bons vaqueiros, e ainda apareciam outros. Com seus ferros, eles marcavam seus animais com o ferro da fazenda e da ribeira. Quando aparecia algum de outra ribeira, os vaqueiros deixavam na primeira fazenda da ribeira original, sem cercas, de forma extremamente extensiva, mas com as cacimbas nos rios e os olhos d’água, o gado ia beber e os vaqueiros laçavam o gado, as crias e os ferravam.

A cidade de Pau dos Ferros, do vizinho Rio Grande do Norte, tem seu topônimo originário de uma localidade onde funcionava uma feira de gado, e os antigos vaqueiros “testavam seus ferros” em uma árvore que ficou marcada por inúmeros ferros. Daí o nome da cidade que em torno dessa feira se formou.

2 – O ALGODÃO

2.1 – AS ORIGENS E O ADVENTO DA CULTURA

Havia um algodão de origem nativa, apenas era de pouca produtividade e de fibra muito curta. Ainda tive a oportunidade de ver algumas plantas quando estive no Piauí. Era chamado de “rim de boi”: as sementes eram juntas e produziam pouco algodão e com fibra curta. Explicando: a lã de algodão, que serve para ser grudada no pelo dos animais e cair noutra localidade para ali germinar, a fibra é, na realidade, uma célula que se expandiu enormemente até chegar a funcionar como um pelo, envolvendo a semente, para se fixar nas pelagens dos animais e ir com eles até outro lugar e aí germinar.

No século passado, trouxeram da África subsaariana um cultivar e ciclo poli-anual (cinco anos) que se expandiu pelo Nordeste, que chovia pouco. Com a Guerra de Secessão dos EUA e o bloqueio do “Rei Algodão” dos portos do sul dos Estados Unidos, a Inglaterra precisou de outro lugar com menos risco, e o Nordeste do Brasil foi um lugar excelente. As fibras do algodão Seridó de Santa Luzia chegavam a ter 40 mm, o que fazia o algodão produzir fios muito finos e resistentes. Na grande seca de 1877, os cultivares que sobreviveram fizeram a fama de nosso algodão, a ponto de, em Cajazeiras, nos anos 30, podermos contar com duas multinacionais: a SANBRA (argentina) e a Anderson Clayton (americana).

2.1 – AS EMPRESAS PIONEIRAS E OUTRAS

Ao par dessas, houve as empresas familiares nacionais que se desenvolveram ao lado, e até antes dessas; temos como paradigma a pioneira dessas: a Usina Santa Cecília, que foi fundada por dois homens de raríssima visão e talento: Cel. Joaquim Matos e seu genro, Adriano Brocos.

Havia as antigas “Bolandeiras” (movidas por bois) e os “locomóveis” (a vapor), que acionavam as antigas máquinas que, desde que foram inventadas no final do século XVIII, nos Estados Unidos, acabaram com o custoso descaroçamento manual do algodão (era tão difícil que somente os Marajás da Índia poderiam vestir). Eles compraram máquinas movidas a gás pobre (uma espécie de motor) e três máquinas de 80 serras cada, que produziam 30 fardos de 150, 180 kg de algodão por dia.

Além disso, veio a brilhante ideia de Adriano: a extração de óleo de caroço de algodão e a fabricação de torta de caroço de algodão.

O caroço “in natura”, por sua grande oleosidade, é sem utilidade para o consumo bovino, mas, se extrair o excesso de óleo, ele fica próprio para tal consumo, e o óleo era usado para fazer sabão. Antes, era usado para aterros e tapar buracos de estradas.

A mudança foi tão grande que a RVC (Rede Viação Cearense) resolveu fazer um ramal da estrada de ferro com terminal em Cajazeiras, passando em frente à Usina Santa Cecília. Como pioneiros, a capacidade técnica de Adriano Brocos e o tino comercial do Cel. Matos, naturalmente, ficaram muito ricos. Exportaram algodão e torta para a Europa. Lotavam vagões da locomotiva, que ia para o Porto de Fortaleza.

Mais tarde, vieram a ser fundados, na cidade de Sousa, outros grupos, em torno da SANBRA, que tinha uma fábrica situada lá. Podia destacar Luiz Oliveira & Filhos, André Gadelha e Irmãos e Docil – Domiciano Pires e seu cunhado Zé Braga. Muitos desses entraram para a política e até hoje estão em evidência. Em Pombal, tivemos a família Pereira.

No Ceará, tivemos o pessoal de Quixadá, Quixeramobim, Senador Pompeu e outras cidades, como Orós, com Elizeu Batista, mas isso vai ser objeto de um capítulo à parte.

2.3 – CAJAZEIRAS E AS ALGODOEIRAS MAIS TARDE

Tivemos no Ceará um cidadão que foi, por meios transversos, fundamental para o desenvolvimento de nossa indústria algodoeira. Refiro-me a Fausto Alves Maia.

Nascido em Ceará-Mirim-RN, andou pelas bandas de Mossoró nos anos 20/30 e chegou em Cajazeiras. Casou-se com a filha de um rico comerciante de Cajazeiras e, com seu aval, fundou duas algodoeiras no estado do Ceará. Produziu coisas fantásticas, como o Primeiro Congresso Eucarístico de nossa Diocese, com a presença de vários bispos, três governadores e uma decoração que até hoje impressiona a quem vê as fotos do evento.

Não conseguiu ser bem-sucedido em tantos empreendimentos, e Cajazeiras ficou muito pequena para ele. Foi para o Rio de Janeiro e chegou a ter escritório na Quinta Avenida, em Nova York. Ganhou muito, gastou muito e morreu em Fortaleza, como intermediário das indústrias de caju. Quem Fausto queria conquistar, ele geralmente conquistava. Foi amigo de ministros e embaixadores, intermediou operações altamente vultosas durante toda a sua vida, mas, para atingir esses objetivos, o preço era alto e, por vezes, era gravoso (dava prejuízo). Dr. Severino Cordeiro nunca admitiu nenhuma ingerência na empresa que vou abordar a seguir.

Mas, quando saiu de Cajazeiras, o seu sogro, seu avalista, teve que pagar seus avais e “herdou” o maquinário de Fausto. O Major Galdino, vendo seu genro, Dr. Severino Cordeiro, e seu filho Hygino Pires sem muita ocupação na cidade, os convidou para serem seus sócios numa empresa nova, que faria história: Galdino Pires S/A Indústria e Comércio.

Teve algumas coincidências que devem ser explicadas, pois é a história que eu mais conheço. O Major Galdino era avalista de Fausto Maia e, na época, veio para Cajazeiras uma agência do Banco do Brasil. Entre todos os clientes, o Major Galdino era mais um. Nas entrelinhas dos contratos, o Banco inseria uma cláusula em que o “favorecido” teria um prazo de 24 horas para liquidar a totalidade do empréstimo, sob pena de o banco pedir a “falência” dessa empresa. Essas pequenas empresas tinham patrimônio suficiente para, com certo prazo, pagarem esses empréstimos, mas, nesse exíguo tempo, cumprir essa cláusula leonina era impossível. Então, a grande maioria das pequenas empresas que tinham seus empréstimos nesse banco foram vitimadas por esse tipo de procedimento, que talvez tivesse o objetivo de diminuir a concorrência para as empresas maiores e as multinacionais, mas tudo isso é apenas uma suposição.

Dr. Severino Cordeiro, que sempre foi associado a Argemiro Figueiredo e servia, na sua gestão de Intendente, como Chefe da Polícia, cargo equivalente ao atual Secretário de Segurança, e, com a ascensão de Ruy Carneiro para esse cargo, veio advogar na terra de seu sogro, o Major Galdino, justamente naquela época. Verificando esses processos de falência e vendo a situação de seu sogro, deu o conselho que o salvaria: o banco iria pedir a ele para pagar seus empréstimos em 24 horas. E, sabedor de que seu sogro era um grande pecuarista, ofereceu a ele que se desfizesse de parte de seu rebanho e se capitalizasse para “o prazo fatal”. O que foi feito. E, determinado dia, o Major Galdino recebeu uma correspondência do Banco solicitando sua presença na agência “para resolver assuntos de seu interesse”.

No dia seguinte, com Dr. Severino ao seu lado, o Major Galdino foi à agência e Dr. Severino falou: “Sabemos o que os senhores querem e aqui está o dinheiro!”

Então, com a falência superada, o Major Galdino ofereceu para seu genro e seu filho, que trabalhava no Perímetro de São Gonçalo, uma sociedade, em que entravam as máquinas deixadas por Fausto Maia. Gineto ficou com a produção e Dr. Severino com a parte financeira e comercial. Além de J. Matos e das duas multinacionais, ficou Galdino Pires e seus sócios.

1940. Cel. Matos falece no Rio de Janeiro; atropelamento. Adriano Brocos não volta para a Santa Cecília, ficando a mesma nas mãos de Clóvis Matos, então com 20 anos, Celso Matos, que mais entendia de medicina, e o contador Mendonça Filho.

A grande realidade foi que, no comércio de algodão, o “apurado” é enorme, mas a margem de lucro é bem pequena, e os donos de algodoeiras têm que vender para as indústrias têxteis, muito maiores e que determinam os preços. Quando em alta, elas fazem ofertas generosas, mas, assim que baixa, não aceitam a mercadoria e devolvem. A margem de lucro varia muito, às vezes chegando a se vender, caso a algodoeira não esteja muito capitalizada, com prejuízo.

As grandes fortunas do algodão não são como as pirâmides do Egito, que resistem ao tempo. Qualquer erro pode ser fatal.

Dr. Severino sempre seguiu o preço da SANBRA e sempre ganhou. Major Galdino acompanhava a Bolsa de Liverpool, com os antigos rádios, para se manter informado.

Na década de 40, enquanto Galdino Pires lentamente crescia, J. Matos e a nova administração faziam o caminho inverso. Terminada a II Guerra, mais exatamente em 1947, os Pires ficaram ricos, enquanto J. Matos entrava em grande decadência.

Adriano Brocos, nos anos 30, separou-se de seu sogro e abriu sua fábrica de óleo vegetal em Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe. Seu filho Péricles Rolim Brocos formou-se em Engenharia Química no Rio de Janeiro e, se ficassem vivos, toda a história de nossa região seria diferente, mas Adriano morreu em circunstâncias misteriosas em 1946 e Péricles, em 1952, de um acidente, ficando suas duas filhas, Áricles e Íracles, muito jovens, sem o pai e o irmão.

Enquanto isso, Galdino Pires e seus sócios iam discretamente ocupando o lugar dos Matos, Dr. Severino fazendo contatos e amizades com os grandes cotonifícios de Pernambuco, como com Dr. Jorge Batista da Silva, considerado o homem mais abastado do Nordeste, bem como os Lundgren, da Tecelagem Paulista. O algodão de Galdino Pires, quando os depósitos ficavam lotados, era depositado no largo que hoje conhecemos como Praça Major José Marques, ao ar livre. Essa situação de subida continuou até o ano de 1966, quando Dr. Severino Cordeiro sofreu um AVC isquêmico e teve que se mudar em definitivo para Recife.

No final da década de 50, ou bem no começo da década de 60, a Anderson Clayton saiu de Cajazeiras e, nas suas estruturas, posteriormente foi fundada a INCAL – Indústria Cajazeirense de Algodão, sob o comando de Quintino Lavor e seus filhos. No começo, foi muito bem-sucedida, mas, como não tenho elementos para analisar com a profundidade que a trajetória dessa merece, prefiro me omitir. A única coisa de que me lembro era a enorme frota de automóveis que o grupo tinha. Então, pode-se tentar auferir que, diante do fato de o comércio de algodão ter uma enorme movimentação de recursos (ou seja: o apurado é grande) e uma margem de lucro mínima, essa empresa pode ter sido vítima de gastos excessivos ou de algum descontrole nos negócios, calote de credores etc. Mas, como já disse, não vou fazer conclusões precipitadas, inclusive para não ferir suscetibilidades de toda uma família trabalhadora, que inclusive conseguiu se reerguer em outro ramo…

2.3 – COMO SE DESENVOLVIA A “CULTURA DO ALGODÃO”

Quando o algodão arbóreo se instalou no interior do Nordeste, as velhas parcerias rurais, algumas com reminiscências medievais, “o dia do dono”, evoluíram para que os gêneros ficassem de terça e o algodão de meia: ou seja, metade do algodão era de quem plantava e a outra metade era do dono da terra. Mas, como geralmente o agricultor não dispunha de seu sustento e da sua família, vendia o algodão “na folha”, ou seja: ainda não colhido ou em desenvolvimento. E ainda havia os “corretores”, outros fazendeiros ou não, que eram “cadastrados” em determinada algodoeira, ou em mais de uma, que recebiam adiantamentos dessas mediante uma futura venda. Era o “algodão na folha” dos intermediários. Em suma: toda uma cultura, com suas peculiaridades, se desenvolvia em torno desse comércio. Na nossa região, o fechamento geralmente se dava em setembro, quando a safra acabava.

Outra coisa muito importante era o manejo com o gado.

Depois de colhido, o gado do dono da fazenda era solto para se alimentar da folhagem do algodão, que não secava, como o milho, e as outras gramíneas e leguminosas. E o gado sobrevivia… como o algodão era polianual, somente se fazia o roço das plantas e, no começo, o gado continuava pastando… Havia a máxima dos sertões: “O primeiro roço é o gado que dá…” Depois, retirava-se o gado para as “mangas”, onde não havia plantações, e o gado passava a estação invernosa pastando nesses reservados sem plantio.

Colhido o algodão, repetia-se o processo. Todos os anos. Nas grandes secas, havia o costume de deixar o gado se alimentar do algodão para sobreviver…

2.4 – MINHA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Depois da aposentadoria de Dr. Severino Cordeiro, a escolha óbvia para sua sucessão seria o engenheiro Paulo Pires Ferreira, mas ele, que já era professor de mestrado no Rio de Janeiro, recusou-se a sair para o Sertão da Paraíba. E foi enfático sobre esse ponto. Então, Dr. Ayrton Pires Maia se prontificou a sair de seu posto de engenheiro de Furnas e vir a morar em Cajazeiras. Mas não tinha a sagacidade nem a capacidade de liderança de Dr. Severino, mas era o que tínhamos na família Pires. Assim foi por mais de uma década. Depois, veio Alberto Pires Ferreira, para cuidar da parte do escritório, e, em 1981, Ayrton saiu para tomar conta de uma construtora em Recife, e, para seu lugar, um engenheiro mecânico formado em Recife, o locutor que vos fala: Saulo Pericles Brocos Pires Ferreira, filho do médico Waldemar Pires Ferreira.

A empresa foi oferecida à COCEPA, mas foi rejeitada. E tivemos que continuar à frente dela. 1981, ano fraco. 2.000 toneladas, 20% da produção. 1982, outro ano fraco, 1.800 toneladas e, em 1983, uma das maiores secas do século: 800 toneladas, no que era o porão do Açude Grande, em Cajazeiras, os meninos jogavam bola. As autoridades não cuidavam dos rurícolas, a fome aconteceu como nas outras vezes, e nem paliativos foram oferecidos. Então, os agricultores famintos invadiram a cidade e saquearam tudo: todos os prédios públicos da cidade foram invadidos e saqueados. Nada sobrou. Prefeitura, todos os colégios, Cibrazem, Cidagro (a Companhia Estadual de Armazenamento). Foi a famosa “Segunda Sem Lei”. Graças a Deus, em menos de 15 dias, as chuvas do inverno de 1984 chegaram, copiosas, e, com elas, a esperança.

A safra de algodão foi de 5.000 toneladas, mais de 10.000 fardos; vendemos à vista e os lucros foram enormes. Por enquanto, a pátria estava salva!!!

2.5 – A PRAGA DO “BICUDO”

Mas, no ano de 1983, já apareceu a notícia de que lá em Campinas (SP), mais precisamente nos campos experimentais do IAC – Instituto Agronômico de Campinas, o inseto Anthonomus grandis, mais conhecido como o bicudo do algodoeiro, que infestou a antiga civilização do “Rei Algodão” nos Estados Unidos nos anos 20, e que, partindo de Campinas-SP, deveria chegar em 10 anos ao Nordeste brasileiro, mas que, de alguma forma, “misteriosamente”, apareceu em 1983 na Paraíba, precisamente nos campos do CNPA (Centro Nacional de Pesquisas do Algodão). Esse inseto tem uma característica extremamente danosa para os algodoeiros: coloca um óvulo no “botão floral” do algodoeiro, assim como em todas as malváceas, e o botão cai e não há o fruto, nem o algodão. Ficam as folhas, porém sem os frutos.

Já na década de 30, o Coronel Matos afirmava, contra tudo o que se acreditava na época, que o algodão era apenas um ciclo e que iria passar. Decerto, desde o final da década de 50, havia alguns sinais de que a produção do Nordeste havia entrado numa sutil diminuição, perante vários fatores, como a mecanização e as novas técnicas de cultivo, mas essa decadência duraria décadas, e, com a vinda desse inseto, essa decadência se deu em poucos anos. E nossa região não estava preparada (e até hoje não está) para uma substituição dessa complexa cultura secular, pois nunca se estudou nossas potencialidades. Temos a forte crença de que tudo o que é bom vem de fora, mas, como não temos uma EMBRAPA que realmente estude nossas plantas e animais nativos, como a anta, a capivara e as gramíneas e outros cultivares nativos, mesmo que sejam para serem descartados. Investe-se no milho, mas esse tem uma dormência de 15 dias e, no interior, temos tempos em que se têm estiagens de 30 ou 60 dias. Não se oferecem outras opções…

Mas, voltando ao nosso caso, em 1985 tivemos uma safra de 13.000 fardos: 6.000 toneladas de algodão, mas houve equívocos na comercialização, que terminamos em prejuízo.

Em 1986, chegou a praga com força e dizimou; ou, mais precisamente, fez um enorme estrago, que nunca mais nossa região conseguiu se reerguer dessa catástrofe. No longuíssimo prazo, entre os estados da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, desapareceram pelo menos 2.000.000 (dois milhões) de empregos diretos, entre plantadores, limpadores, colhedores, transportadores, comerciantes, usineiros e operários.

A pouca produtividade não compensava o combate. O inseticida era caro e perigoso. E, finalmente, antieconômico.

Numa roda de conversa em Cajazeiras, me disseram: “Vocês vão ‘se acabar’; o bicudo vai deixá-los na miséria!” Eu respondi: “A gente tem estudo, tirocínio e podemos mudar de ramo, mas eu tenho pena dos pobres agricultores que não têm nossa formação. Eles vão sofrer de verdade.”

De fato, nós conseguimos aumentar nossa fábrica de óleo e depois partimos para uma fiação. O caroço e a matéria-prima podiam ser trazidos do cerrado baiano e de Mato Grosso, e o consumo era próximo: os laticínios de Sousa e as tecelagens de São Bento consumiam nossos produtos finais: torta, óleo e fios têxteis. Mas, para a população que vivia do manejo do gado e do algodão, foi um golpe fatal. Eles tiveram de abandonar a zona rural, vir encher nossas periferias urbanas de subempregados e, consequência final, toda uma cultura secular está aos poucos sendo esquecida.

2.6 – OUTRAS ALGODOEIRAS NA CIDADE

Depois da já citada INCAL, os prédios da Anderson Clayton foram ocupados por J. Sarmento Ltda., que, entre outras coisas, ficou marcada por um grande incêndio em seu depósito de algodão na década de 70, e, posteriormente, a Algodoeira Sertaneja, de propriedade de Sr. Oliveira e Pedro Abrantes Neto, ambos do Lastro-PB. Posteriormente, Sr. Oliveira ficou sozinho, enquanto Pedro Abrantes ficou com a Fábrica de Doces Patamuté e instalou outra algodoeira em anexo. Em seguida, saiu do ramo de doces e embarcou no ramo da fiação.

3 – CONCLUSÃO

3.1 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

As idas e vindas, o advento do tal “algodão colorido”, o surgimento de outros cultivares, na minha opinião, não vão conseguir voltar a fazer a “ressurreição” dessa cultura, pois precisa de tecnologia e de previsibilidade, que absolutamente não temos, nem vamos ter como o foi no passado.

Como se deveria fazer com determinadas culturas indígenas: estudar, registrar e dar as novas condições da modernidade. Negar escola, banheiro e energia elétrica aos Yanomami para que eles preservem sua cultura, que, entre outros costumes, aceita o infanticídio de meninas, é, na minha opinião, um crime.

Mesma coisa: insistir em convencer os fazendeiros do Sertão do Nordeste de que o algodão ainda é uma cultura viável para toda a região. Pode ser em situações de subsistência, artesanato ou no dia em que se conseguir irrigar, por pivô central, áreas maiores do que, por exemplo, 1.000 hectares, o que ainda não foi conseguido. A pulverização se daria através de drones e a colheita por colheitadeiras. Mas estamos muito longe dessa realidade.

Descobrir outra cultura talvez seja um caminho menos dificultoso. A mamona, o pinhão-manso, por exemplo, não morrem com a seca, mas precisa-se mudar toda uma concepção de tecnologia agrícola, e nossa extensão rural é muito deficiente, para dizer o mínimo. O termo correto seria quase inexistente.

Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts