O colégio das freiras

Foi há mais de 50 anos, em abril de 1975, e eu tinha 4 anos. O local era imenso: o prédio, a fachada, as janelas, o pátio, o parquinho, o juazeiro, a quadra, o sítio, a capela, a biblioteca. Tudo era gigantesco aos meus olhos de menino. Tudo parecia maior do que era, como se aquele mundo coubesse inteiro dentro da minha pequena infância.

No “colégio das freiras”, onde minha mãe havia se formado professora em 1966, eu enfrentava meu primeiro dia de aula: fardinha com camisa branca e bolso com o brasão do Colégio Nossa Senhora de Lourdes impresso, short curto azul, Conga nos pés.

A bolsa era simples, tipo pasta com zíper, de couro preto, com dois bolsos: um para o caderno, outro para lápis. A bolsa usada pela manhã no colégio era revezada com meu pai à tarde, pois era sua pasta de trabalho.

No caminho pelas Oiticicas, a lateral do colégio com dezenas de pés de fícus, repletos de lacerdinhas, o terrível inseto a nos cair nos olhos. Fui decorando o caminho como quem aprende, sem saber, o mapa da própria infância: Rua Coronel Justino Bezerra, Rua dos Armazéns (Rua Padre Manoel Mariano), Praça dos Carros (Praça Coração de Jesus), Praça João Pessoa, Oiticicas, Praça Mãe Aninha. Pronto, chegamos.

A sala do jardim de infância, ao lado do pátio e da cantina, comandada pela professora Maria Teresa, repleta de tantos e tantos colegas cujos nomes me fogem à memória, bem como os nomes das freiras gestoras daquela época.

Caderno de arame, lápis comum, lápis de cor, borracha, lapiseira. Letra ruim a minha… A merenda, pão doce, refresco. O recreio, correria, algazarra. Depois, um cochilo reparador na esteira.

O parquinho da hora do recreio: um escorregador, um balanço, uma gangorra, a sombra do pé de coité. Do lado, a maior árvore jamais vista: o imenso juazeiro, local de tantas brincadeiras à sua sombra. Ele ainda está lá.

O sítio, imenso, nossa floresta, dividido pelo riacho, com dezenas de pés de manga, coco, pinha, mato, passarinhos diversos. E a proibitiva cerca de arame a nos desafiar cotidianamente. Era o nosso mundo proibido, o pedaço de natureza que despertava a curiosidade e alimentava a imaginação.

Na biblioteca, estantes repletas de livros e revistas, que me prendiam a atenção. Ali, entre aquelas páginas, eu descobria outros mundos sem sair de Cajazeiras.

A capela, local obrigatório da missa semanal; a gruta, passagem obrigatória da despedida diária.

Na saída, a pracinha com o busto do Padre Rolim, o caminho de volta, com a companhia da minha mãe, dos colegas e dos amigos da vizinhança. Cajazeiras era outra cidade, pacata, pequena, quase cabendo inteira dentro dos passos de uma criança, e que hoje ficou perdida na bruma do tempo.

Com alguns intervalos, estudei por 6 anos no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e passei muito tempo sonhando com aqueles ambientes dos meus primeiros passos.

Festinhas de aniversários dos colegas de classe, comemorações do Dia das Mães e dos Pais, dos Professores, do Estudante, festa junina, festas religiosas. Carinho, aconchego, atenção, estímulo. Eram coisas simples, mas que ficaram guardadas em algum lugar profundo da memória.

Só parei de sonhar com o colégio quando por lá matriculei Marina, minha primogênita, e depois Camila, minha caçula. Mas aí já é outra história.

Total
0
Shares
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts